Como saber se uma escolha é realmente minha?

 

Como saber se as escolhas que faço são realmente minhas?

Mulher diante do espelho refletindo sobre suas escolhas e autonomia pessoal



Tem uma pergunta que pode ser muito mais difícil do que “o que eu quero?”

Essa escolha é realmente minha?

Porque, às vezes, a gente sabe exatamente o que está fazendo.

Escolhe o emprego.

Escolhe o relacionamento.

Escolhe ficar.

Escolhe ir embora.

Escolhe continuar.

Escolhe desistir.

E ainda assim existe alguma coisa estranha por dentro.

Uma sensação difícil de explicar.

Como se a vida estivesse andando, mas não exatamente na direção que a gente escolheria se ninguém estivesse olhando.

E talvez seja justamente aí que mora a confusão.

Nem toda escolha que fazemos nasceu dentro de nós.

Algumas nasceram do medo.

Outras da culpa.

Outras da necessidade de agradar.

E algumas nasceram tão cedo que a gente nem lembra mais de onde vieram.

Quando a escolha parece sua, mas não é

Existe uma diferença enorme entre escolher alguma coisa e sentir que aquela escolha representa quem você é.

Você pode dizer:

“Eu escolhi esse trabalho.”

Mas, quando olha com mais cuidado, percebe que escolheu porque era o que sua família considerava seguro.

Pode dizer:

“Eu escolhi esse relacionamento.”

Mas talvez tenha escolhido porque aquele tipo de relacionamento parecia ser o que uma mulher deveria desejar.

Pode dizer:

“Eu escolhi ficar.”

Mas talvez tenha ficado porque não suportaria decepcionar alguém.

Pode até dizer:

“Eu escolhi essa vida.”

E, ainda assim, descobrir que passou anos apenas cumprindo expectativas.

É uma descoberta desconfortável.

Porque assumir que você não escolheu tudo o que viveu também significa olhar para a própria história com outros olhos.

Quantas das suas escolhas começaram com um “eu tenho que”?

Essa pergunta pode abrir uma porta.

Eu tenho que trabalhar com isso.

Eu tenho que continuar nesse relacionamento.

Eu tenho que cuidar de todo mundo.

Eu tenho que ser uma boa filha.

Eu tenho que ser uma boa mãe.

Eu tenho que dar conta.

Eu tenho que aceitar.

Eu tenho que agradar.

Eu tenho que fazer aquilo que esperam de mim.

Percebe?

Tem uma diferença entre eu quero e eu tenho que.

Nem sempre poderemos fazer tudo o que queremos.

A vida tem contas, responsabilidades, compromissos, pessoas que dependem de nós e consequências reais.

Autonomia não é fazer qualquer coisa.

É outra coisa.

É conseguir reconhecer que existe uma escolha acontecendo, mesmo quando existem limites.

E, principalmente, conseguir perceber por que você está escolhendo aquilo.

O problema não é ouvir a opinião dos outros

Talvez seja importante dizer isso porque existe uma romantização estranha da independência.

Como se uma mulher autônoma fosse aquela que não escuta ninguém.

Não é.

Eu posso ouvir minha mãe.

Meu marido.

Minha amiga.

Meu filho.

Uma pessoa que admiro.

Um profissional.

Posso ouvir dez opiniões diferentes.

Posso até mudar de ideia depois de ouvir alguém.

Isso não significa que a outra pessoa decidiu por mim.

O problema começa quando a opinião do outro passa a valer mais do que aquilo que eu penso sobre a minha própria vida.

Quando eu já sei o que quero, mas preciso que alguém diga que está certo.

Quando eu já sei que não quero, mas fico procurando alguém que me autorize a recusar.

Quando a pergunta deixa de ser:

“O que eu penso sobre isso?”

e passa a ser:

“O que vão pensar de mim se eu fizer isso?”

É aí que a escolha começa a mudar de dono.

E se ninguém soubesse?

Essa é uma pergunta que eu gosto muito.

Imagine que ninguém fosse saber da sua decisão.

Ninguém da sua família.

Nenhuma amiga.

Nenhum vizinho.

Nenhum colega.

Ninguém que você conhece.

Você ainda escolheria a mesma coisa?

Não precisa responder rápido.

Porque talvez a primeira resposta seja aquela que você aprendeu a dar.

Fique mais um pouco com a pergunta.

Se ninguém pudesse te elogiar pela escolha...

Se ninguém pudesse te criticar...

Se ninguém pudesse dizer que você está fazendo a coisa certa...

Você ainda escolheria isso?

Às vezes, a resposta assusta.

Às vezes, ela alivia.

E às vezes ela simplesmente revela que você ainda não sabe.

E tudo bem.

Não saber também é uma resposta.

Existe uma diferença entre desejo e expectativa

A expectativa costuma chegar acompanhada de uma voz.

“Você deveria.”

“Na sua idade, já era para.”

“Depois você vai se arrepender.”

“Todo mundo está fazendo.”

“Isso é melhor para você.”

“Você precisa pensar no futuro.”

“Você não pode jogar tudo fora.”

Algumas dessas frases podem até conter preocupação verdadeira.

Mas preocupação verdadeira também pode carregar expectativas.

E uma expectativa repetida muitas vezes começa a parecer desejo.

É assim que algumas mulheres passam anos correndo atrás de coisas que nunca desejaram profundamente.

Não porque sejam fracas.

Não porque não tenham personalidade.

Mas porque passaram tanto tempo tentando corresponder que começaram a confundir ser aceita com estar vivendo de acordo consigo mesma.

Talvez você não esteja perdida

Talvez essa seja a parte mais incômoda.

Talvez você não esteja perdida.

Talvez esteja cansada de escolher entre o que sente e o que esperam.

Talvez não esteja sem direção.

Talvez esteja tentando encontrar uma direção que consiga agradar todo mundo.

E essa direção provavelmente não existe.

Porque chega uma hora em que qualquer escolha verdadeira vai desagradar alguém.

Vai contrariar uma expectativa.

Vai frustrar uma pessoa.

Vai parecer estranha para alguém.

Vai fazer alguém perguntar:

“Mas por quê?”

E você talvez não tenha uma resposta bonita.

Talvez tenha apenas:

“Porque eu não quero mais.”

Ou:

“Porque eu quero outra coisa.”

Ou:

“Porque isso deixou de fazer sentido para mim.”

Isso também é uma resposta.

Uma escolha sua não precisa parecer bonita para os outros

Existe uma coisa curiosa sobre escolher por si mesma.

A escolha pode continuar difícil.

Pode continuar dando medo.

Pode continuar trazendo consequências.

Pode até dar errado.

Autonomia não vem com garantia de acerto.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de aceitar.

A gente quer ter certeza antes de escolher.

Quer saber se vai funcionar.

Quer saber se ninguém vai se arrepender.

Quer saber se todo mundo vai entender.

Quer saber se, daqui a cinco anos, vamos olhar para trás e dizer:

“Foi a decisão certa.”

Só que ninguém tem esse contrato assinado com o futuro.

Escolher também significa assumir que não existe garantia.

E talvez seja exatamente aí que começa uma relação mais adulta com a própria vida.

Eu escolho.

Eu assumo.

Eu observo.

Eu posso mudar de ideia.

Eu posso corrigir a rota.

Mas a escolha é minha.

Como saber se uma escolha é realmente minha?

Talvez não exista um teste perfeito.

Mas existem perguntas que podem fazer bastante barulho por dentro.

Antes de uma decisão importante, experimente ficar alguns minutos longe das opiniões externas e perguntar:

Eu faria isso se ninguém precisasse aprovar?

Estou escolhendo porque quero ou porque tenho medo das consequências de não escolher?

Se ninguém ficasse decepcionado comigo, o que eu escolheria?

Estou tentando construir uma vida que desejo ou uma vida que parece certa aos olhos dos outros?

Essa escolha combina com a mulher que eu sou hoje ou apenas com a mulher que esperavam que eu fosse?

Se eu pudesse admitir a verdade sem precisar justificá-la, o que eu diria?

Talvez alguma resposta apareça.

Talvez apareçam várias.

Talvez nenhuma.

Não transforme isso em mais uma prova para você passar.

A ideia não é sair dessa conversa com uma decisão pronta.

É começar a perceber quem está sentada na cadeira quando você diz:

“Eu escolhi.”

E quando a resposta for “eu não sei”?

Então não invente uma resposta.

Essa talvez seja uma das escolhas mais honestas que você pode fazer.

“Eu ainda não sei.”

Existe muita pressão para transformar qualquer dúvida em decisão.

Escolha uma profissão.

Escolha alguém.

Escolha um caminho.

Escolha logo.

Decida.

Resolva.

Mas algumas respostas precisam de tempo.

E talvez você esteja justamente começando a descobrir o que quer depois de anos fazendo o que precisava.

Nesse caso, não saber imediatamente não significa fracasso.

Pode significar que você finalmente parou de responder automaticamente.

Antes de ir

Talvez você tenha chegado até aqui esperando descobrir como fazer escolhas melhores.

Mas talvez a pergunta mais importante seja outra.

Quem tem participado das suas escolhas?

Você?

Sua culpa?

Seu medo?

Sua família?

Seu relacionamento?

A necessidade de aprovação?

A imagem da mulher que você acha que deveria ser?

Talvez você não precise sair daqui decidindo nada hoje.

Talvez precise apenas ficar alguns minutos em silêncio.

Sem explicar.

Sem justificar.

Sem pedir opinião.

Só você e aquela pergunta que talvez esteja esperando há muito tempo:

“Se a minha vida fosse realmente minha, o que eu escolheria?”

Não precisa responder bonito.

Não precisa responder rápido.

Só não fuja da resposta.

Porque talvez exista uma mulher aí dentro que não desapareceu.

Ela só ficou tempo demais esperando você voltar para conversar com ela.

Perguntas frequentes

Como saber se estou fazendo uma escolha por mim ou para agradar os outros?

Observe o que pesa mais na decisão. Se o principal motivo é evitar julgamento, decepcionar alguém ou receber aprovação, vale investigar se existe um desejo seu por trás daquela escolha.

É errado pedir opinião antes de tomar uma decisão?

Não. Ouvir pessoas de confiança pode ampliar sua percepção. O ponto não é deixar de ouvir. É não entregar a outra pessoa a responsabilidade pela decisão que pertence a você.

Posso mudar de ideia depois de escolher?

Pode. Uma escolha não precisa virar uma prisão. Conforme você conhece melhor a si mesma e as circunstâncias mudam, também pode perceber que deseja outro caminho.

E se minha escolha decepcionar alguém?

Pode acontecer. Fazer uma escolha própria não significa impedir que outras pessoas tenham sentimentos sobre ela. A decepção do outro não transforma automaticamente sua escolha em uma escolha errada.

Como começar a descobrir o que realmente quero?

Comece observando as pequenas escolhas do cotidiano. Perceba o que você deseja, o que evita por medo, o que aceita por obrigação e aquilo que faz apenas porque acredita que deveria querer. Às vezes, o desejo aparece primeiro nas pequenas coisas. 

Talvez o problema não seja dizer não. Talvez seja o que você aprendeu que significa dizer não. Leia também: “Por que me sinto culpada quando digo não?”

Next Post Previous Post
No Comment
Add Comment
comment url

Você também pode gostar