Por que me sinto egoísta quando penso em mim?

 

Por que me sinto egoísta quando penso em mim?

Mulher sentada sozinha refletindo sobre suas próprias necessidades e escolhas.


Tem uma pergunta que pode parecer simples, mas costuma abrir um buraco enorme:

Por que pensar em mim às vezes parece egoísmo?

Você pensa em descansar e lembra de tudo que ainda precisa fazer.

Quer comprar alguma coisa para você e pensa no que poderia fazer com aquele dinheiro.

Quer ficar sozinha e já imagina quem vai achar ruim.

Quer mudar alguma coisa na sua vida e começa a pensar em quem vai precisar se adaptar.

Você até sabe o que gostaria.

O problema é que, quando a vontade é sua, alguma coisa dentro de você pergunta:

“Mas e os outros?”

E pronto.

A sua vontade senta no banco dos réus.

Quando se colocar na própria vida parece errado

Talvez você tenha aprendido que uma mulher boa é uma mulher que considera todo mundo.

A mãe.

O marido.

Os filhos.

Os pais.

Os amigos.

O trabalho.

A casa.

As necessidades de quem está por perto.

Considerar as pessoas não é um problema.

Aliás, faz parte de qualquer relação.

O problema aparece quando considerar o outro exige que você deixe de se considerar.

Quando isso acontece, cuidar de si começa a parecer exagero.

Descansar parece preguiça.

Dizer não parece grosseria.

Comprar algo para você parece desperdício.

Ter um desejo próprio parece egoísmo.

E talvez você nem perceba que existe uma regra funcionando silenciosamente:

As necessidades dos outros são legítimas. As minhas precisam de justificativa.

Talvez você não tenha aprendido a ser egoísta. Aprendeu a não incomodar

Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Uma criança que percebe que determinadas vontades provocam irritação, crítica ou desaprovação pode aprender a diminuí-las.

Não pedir.

Não reclamar.

Não insistir.

Não dar trabalho.

Não contrariar.

Com o tempo, isso pode virar uma mulher extremamente adaptada.

Ela sabe o que todo mundo precisa.

Sabe o que esperam dela.

Sabe quando alguém está incomodado.

Sabe o que precisa fazer para manter tudo funcionando.

Só existe uma informação que pode ter ficado meio perdida no caminho:

O que ela precisa?

E quando essa pergunta finalmente aparece, pode vir acompanhada de culpa.

Porque uma pessoa que passou muito tempo se adaptando pode interpretar autonomia como egoísmo.

Mas existe uma diferença entre pensar em você e pensar só em você

Essa diferença parece óbvia.

Mas, na prática, muita mulher foi ensinada a confundi-la.

Pensar em você não significa ignorar todo mundo.

Não significa abandonar responsabilidades.

Não significa fazer tudo o que quiser sem considerar consequências.

Não significa tratar as necessidades dos outros como irrelevantes.

Pensar em você significa incluir você na decisão.

É diferente.

Você pode pensar:

“Eu preciso descansar.”

E continuar sendo responsável.

Pode pensar:

“Eu não quero fazer isso.”

E continuar amando alguém.

Pode pensar:

“Essa relação não funciona mais para mim.”

E ainda reconhecer que o outro é uma pessoa importante.

Pode escolher algo que alguém não gostaria.

E ainda assim não estar sendo cruel.

Autonomia não é transformar o mundo em torno de você.

É parar de construir a própria vida como se você fosse a única pessoa que não precisa ser considerada.

Talvez o problema esteja na palavra “merecer”

Às vezes, antes de fazer alguma coisa por nós mesmas, procuramos uma justificativa.

“Eu mereço porque trabalhei muito.”

“Eu mereço porque fiz tudo certo.”

“Eu mereço porque estou cansada.”

“Eu mereço porque todo mundo já fez por mim.”

Como se precisássemos apresentar documentos para provar que temos autorização para cuidar de nós.

Mas percebe uma coisa?

Você não precisa estar exausta para ter direito a descanso.

Não precisa estar sofrendo para precisar de cuidado.

Não precisa ter terminado tudo para querer alguma coisa.

Não precisa fazer por merecer cada pequeno espaço da própria vida.

Talvez esse seja um dos primeiros sinais de autonomia:

Parar de pedir autorização interna para existir além das necessidades dos outros.

E quando a culpa aparece?

Ela pode aparecer mesmo quando você não fez nada de errado.

Isso é importante.

Sentir culpa não prova que você foi egoísta.

Sentir medo não prova que você tomou uma decisão errada.

Sentir desconforto não significa que você precisa voltar atrás.

Às vezes, o desconforto é apenas o desconforto de fazer alguma coisa diferente do que você aprendeu.

Imagine uma mulher que passou anos dizendo sim.

No dia em que diz não, ela pode sentir culpa.

Não porque o não foi errado.

Mas porque é novo.

É possível que o corpo reconheça primeiro a quebra do padrão e só depois a consciência consiga perceber:

“Eu não fiz nada de absurdo. Eu só não fiz o que esperavam de mim.”

Você também pode estar confundindo cuidado com disponibilidade

Essa é outra armadilha.

Cuidar de alguém não significa estar disponível o tempo inteiro.

Amar não significa atender todas as demandas.

Ser uma boa mãe, companheira, filha, amiga ou profissional não exige estar permanentemente acessível.

Porque disponibilidade constante tem um preço.

E, muitas vezes, quem paga esse preço é você.

Você adia.

Acumula.

Engole.

Resolve.

Aguenta.

Até que um dia percebe que todo mundo tem espaço na sua agenda, mas você só aparece quando sobra um intervalo.

E talvez seja por isso que pensar em si mesma pareça tão estranho.

Você não está acostumada a ocupar espaço na própria agenda.

Na própria decisão.

Na própria vida.

“Mas eu não quero me tornar uma pessoa egoísta”

Talvez esse seja justamente o medo.

Depois de anos ouvindo que é preciso pensar nos outros, surge o receio de ir para o extremo oposto.

“E se eu começar a me escolher e virar uma pessoa egoísta?”

Mas autonomia não exige abandonar a consideração pelo outro.

Você pode estabelecer um limite e ouvir a frustração de alguém.

Pode fazer uma escolha própria e assumir suas consequências.

Pode dizer não sem humilhar ninguém.

Pode cuidar de si sem deixar de cuidar de quem depende de você.

Pode discordar sem desrespeitar.

Ser autônoma não significa deixar de ter responsabilidade.

Na verdade, pode significar assumir mais responsabilidade pela própria vida.

Inclusive pelas escolhas que você faz.

O que acontece quando você sempre escolhe o outro?

A princípio, parece paz.

Menos conflito.

Menos cobrança.

Menos gente chateada.

Menos explicações.

Só que existe uma conta que pode aparecer depois.

Você começa a não saber mais o que quer.

Começa a duvidar das próprias decisões.

Pede opinião para tudo.

Sente culpa quando se prioriza.

Espera que alguém diga que está tudo bem.

E talvez o mais silencioso de tudo:

Começa a viver uma vida que funciona para os outros, mas não necessariamente para você.

Por fora, pode estar tudo certo.

Por dentro, alguma coisa continua perguntando:

“E eu?”

Talvez você não precise se colocar em primeiro lugar

Essa frase pode parecer estranha.

Mas talvez seja exatamente isso.

Porque a questão não é criar um ranking em que você fica em primeiro e todo mundo fica depois.

A questão é parar de colocar você sempre por último.

Às vezes, você vai escolher o outro.

Às vezes, vai escolher você.

Às vezes, vai escolher os dois.

Às vezes, ninguém vai sair completamente satisfeito.

E tudo bem.

A vida adulta não oferece uma escolha em que todo mundo fica feliz o tempo inteiro.

Autonomia também é conseguir olhar para uma situação e perguntar:

“Considerando todo mundo envolvido, o que eu escolho?”

E, nessa pergunta, finalmente existe um lugar para você.

Talvez pensar em si seja exatamente o contrário do que você imaginava

Talvez não seja egoísmo.

Talvez seja presença.

Porque quando você começa a considerar o que sente, o que quer, o que pensa, o que aceita e o que não aceita, você deixa de ser apenas alguém reagindo às expectativas ao redor.

Você começa a participar.

Não significa que todas as suas escolhas serão certas.

Não significa que você nunca vai se arrepender.

Não significa que ninguém ficará decepcionado.

Significa apenas que a sua vida também passa a contar na hora de decidir o que fazer com ela.

E talvez seja isso que tenha faltado por tanto tempo.

Não mais uma regra.

Não mais alguém dizendo o que você deveria fazer.

Mas espaço suficiente para você finalmente se perguntar:

“O que eu quero considerar quando penso na minha própria vida?”

Talvez essa resposta seja o começo de alguma coisa.

Antes de ir

Talvez você tenha passado tanto tempo tentando não ser egoísta que acabou aprendendo uma coisa muito mais perigosa:

A considerar egoísmo qualquer necessidade sua que incomode alguém.

Então, antes de se acusar, experimente observar.

Quando você pensa em fazer algo por você, o que exatamente aparece?

Culpa?

Medo?

Vergonha?

A sensação de que está abandonando alguém?

A necessidade de explicar sua escolha?

Ou simplesmente a velha sensação de que você deveria estar fazendo alguma outra coisa por outra pessoa?

Não precisa responder agora.

Mas talvez exista uma pergunta esperando há algum tempo:

Se pensar em mim não fosse egoísmo, o que eu começaria a considerar na minha própria vida?

Talvez a resposta não seja uma grande mudança.

Talvez seja só o começo.

E começos, você já sabe, não precisam da versão perfeita.

Perguntas frequentes

Pensar em mim mesma é egoísmo?

Não necessariamente. Considerar suas necessidades, desejos, limites e valores faz parte de uma vida autônoma. Egoísmo envolve desconsiderar deliberadamente os outros, enquanto pensar em si permite incluir você nas decisões sem apagar as demais pessoas.

Por que me sinto egoísta quando me priorizo?

Isso pode acontecer quando você aprendeu a associar cuidado, amor ou responsabilidade à ideia de colocar os outros antes de si. Nesse contexto, fazer algo por você pode provocar culpa mesmo quando não existe uma transgressão real.

Como saber se estou sendo egoísta ou apenas cuidando de mim?

Uma boa pergunta é:

“Estou ignorando deliberadamente o impacto da minha escolha sobre os outros ou estou considerando essas pessoas sem apagar minhas próprias necessidades?”

A diferença está menos em escolher a si mesma e mais na maneira como você se relaciona com as consequências da escolha.

É errado escolher algo que vai decepcionar alguém?

Não necessariamente. A decepção de outra pessoa não é, por si só, uma prova de que sua escolha foi errada. Pessoas podem ter expectativas diferentes e ainda assim manter relações nas quais existe espaço para discordância.

Como começar a pensar mais em mim sem abandonar minhas responsabilidades?

Comece percebendo onde você costuma se retirar automaticamente das decisões. Pergunte o que você sente, quer, precisa ou não aceita antes de considerar apenas o que os outros esperam.

Pensar em si não significa deixar responsabilidades de lado, mas incluir sua própria existência na equação.

Uma última pergunta

Você está cuidando de todo mundo porque escolhe cuidar ou porque aprendeu que, se não cuidar, será uma pessoa ruim?

Talvez essa diferença mude muita coisa.



Previous Post
No Comment
Add Comment
comment url

Você também pode gostar